O eclipse de Londres, o vizinho britânico e a triste sina do turismo brasileiro: quando a malandragem afugenta o mundo
Conversa de quintal sob o Sol de agosto revelou por que Seul e Banguecoque faturam com milhões de visitantes enquanto o Brasil continua preso à insignificância de cinco milhões de turistas por ano.
No dia 12 de agosto de 2026, estava eu no quintal do prédio onde moro em Londres, aguardando o eclipse parcial que escureceu brevemente o final da tarde britânica. Já estava a postos quando o meu vizinho Sam chegou e começamos a conversar. Enquanto o fenómeno celeste decorria, revezámos os óculos especiais para proteger a vista, e a conversa fluiu naturalmente.
Quase uma hora de conversa depois, ele largou a confissão: estava indeciso entre ir conhecer o Brasil ou a Coreia do Sul. Como bons catarinenses orgulhosos, eu e a minha esposa puxámos a brasa à nossa sardinha e indicámos Florianópolis. Mandei-lhe logo uns cinco vídeos em inglês, produzidos por outros estrangeiros, mostrando as belezas da ilha da magia.
Como a vida em Londres corre a uma velocidade implacável, fomos nos cruzando muito pouco desde então — um simples "Bom dia, como estás? Tenha um bom dia" e cada um seguia o seu caminho. Até que hoje pela manhã, exatamente uma hora antes de me sentar para escrever isto, ele apareceu à minha espera para irmos tomar um café na Starbucks perto de casa. Aceitei de pronto.
Entre um gole e outro, perguntei o que ele tinha achado dos vídeos de Floripa. Ele sorriu, disse que achou maravilhoso e que teve excelentes feedbacks da cidade. Contudo, o plano inicial dele não era apenas passar uns dias na ilha, mas sim uma viagem de três semanas para desbravar o Brasil a fundo.
E foi aí que o sabor agridoce prevaleceu no café. Ele explicou que, ao pesquisar sobre outras regiões do país, os relatos de outros viajantes internacionais simplesmente mudaram a sua perspetiva. Enquanto Florianópolis recolheu elogios, as histórias vindas de outros pontos do território nacional desenharam um cenário completamente diferente.
O grande freio acabou por ser a cultura generalizada de tentar tirar vantagem em tudo. A perceção que fica aqui fora é a de que o "gringo" é visto como uma carteira ambulante, alguém que nada em dinheiro e de quem se pode explorar sem pudor. O resultado? Decidiu riscar o Brasil do mapa e rumar a Seul, na Coreia do Sul, aproveitando para esticar a viagem até Hong Kong e Banguecoque, na Tailândia.
Sinceramente feliz pelo feedback positivo em relação a Floripa e pelo reconhecimento da nossa terra, mas confesso que bateu aquela tristeza ao saber que, por causa do reflexo de outras cidades e da fama que o país carrega, ele optou por não ir.
Os números não mentem. Enquanto essa mentalidade coletiva não mudar, o Brasil, com a sua imensidão continental e diversidade ambiental estrondosa, continuará empacado nos miseráveis cinco milhões de turistas por ano. Para efeito de comparação, as Ilhas Canárias, que têm o tamanho da cidade de São Paulo, recebem anualmente sete milhões de visitantes, ou as ilhas Baleares com seus 70km de norte a sul recebendo 40 milhões por ano.
No final da história, quem perde de forma monumental é a população Catarinense, que continua a ver o potencial e a riqueza do turismo escoarem pelo ralo, por causa de outros locais do Brasil.